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Francisco Bento e Catarina Maria, por Maurício José |
O
sonho era antigo.
Quando
o Francisco nasceu, há quatro anos, até cogitamos sair da capital, mas percebemos que ainda não
era hora.
Foi
nessa ultima páscoa que decidimos vir pro campo. E em menos de um mês havíamos vendido nosso
apartamento em Santa Teresa no Rio, que para nós foi uma confirmação que o
momento chegara.
Desde
então começamos nossa aventura. Em pouco mais de 3 meses, encerramos nosso ciclo na capital carioca, ou
melhor mudamos a forma de estar no Rio de Janeiro. Porque vamos manter nossos
vinculos lá, mas com a opção de estar em terras mais tranquilas. Foram meses
intensos, pra mim, ao menos, cada dia parecia uma semana.
A
Matiqueira nos escolheu!
Numa
busca pela internet, chegamos a um vilarejo chamado Campo Redondo, zona rural
de Itamonte em Minas Gerais. Não sei explicar como, mas o Mauricio e eu,
encontramos o mesmo anúncio de um sítio na serra da Lapa, próximo a Resende/RJ.
A partir daí chegamos no vilarejo.
Aqui
em Campo Redondo descobrimos muitas qualidades que tinham a ver com o nosso
trabalho, como por exemplo, ser uma região de criação de ovelhas e mulheres
tecelãs. Conhecemos dois casais que são amigos de muitos amigos em comum, um
deles ligados à Antroposofia.
Outro
aspecto que nos chamou a atenção foi a caracteristica do lugar. Vilarejo de
aproximadamente 300 familias com características preservadas.
Visto de longe o lugar parece um oratório.
Nos encantamos!
O
sitio que nos trouxe até aqui, tem uma capela de São Jerônimo tombada pelo IPHAN.
Na região há muitas cachoeiras, montanhas, araucárias, que para mim são muito
simbólicas.
Dia
desses ví muitas gralhas azuis na minha janela. Pra quem não sabe a gralha
azul, é o passaro semeador das araucárias. Sou da terra das auraucárias, o
Paraná. Me sinto em casa aqui.
Os amigos não entederam direito, alguns só
acreditaram mesmo quando viram a casa em caixas.
Pra nós era um sonho antigo. E realizar,
era só mais um passo. E o passo foi dado.
Muitas vezes me perguntei se era isso mesmo
que queria. Senti medo, coragem, calafrio... O processo foi intenso mesmo. E cada
vez que batia a dúvida terrível eu me firmava na possibilidade de experienciar
algo muito novo.
Não é fácil sair do conhecido e mergulhar
num mundo de incertezas.
O Rio de Janeiro é a cidade natal do meu
marido, dos meus filhos e pra mim ofereceu oportunidades incríveis. Fiz amigos,
realizei bons trabalhos, parcerias muito bacanas com pessoas e instituições. Mas
havia chegado ao fim.
Bem, a mudança em si, foi surreal!
Saímos
do Rio no domingo dia 29 de Setembro Agosto e só pra ter história pra contar, nosso
caminhão, ficou parado na greve dos caminhoneiros na Dutra até a meia
noite de terça. Chegou aqui em Campo Redondo na quarta feira. Minha mãe havia
ido me ajudar. Eu havia separado um tanto de roupa pra levar na bagagem de mão. Essas
roupas não vieram comigo, ficaram na Dutra, minha mãe não sabia e mandou a mala
pro caminhão. Detalhe: não coube tudo num único caminhão, parte da mudança veio no outro dia.
Nossos filhos estavam na casa da minha
sogra e também nao podiam vir pra cá, por conta da paralisação. Era um misto de
tudo ao mesmo tempo agora em mim.
Sem muitas roupas, sem filhos e sem casa....
decidimos aproveitar. Dormimos muito!
Ter a nossa casa “parada” numa estrada no
meio do nada é muito estranho. Todo o meu universo particular estava lá na
Dutra. Me dava calafrios só de pensar no que poderia acontecer com o nosso
caminhão. O nosso motorista foi guerreiro!
Enfim,
ainda temos muitas coisas em caixas. Não sairão tão cedo. A nossa aventura está
apenas começando, vamos ainda construir nossa casa, fazer nossa horta,
reflorestar nossa nascente... Temos muito trabalho pela frente!
Uma
amiga me escreveu dizendo ter a sensação de que estamos voltando pra casa, e é
isso mesmo! Voltei para casa. Os pessegueiros estão florescendo. O céu tem
tanta estrela que mais parecem pisca pisca... Tudo isso me faz lembrar a menina
que fui.
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Esse é nosso amigo "galopa", nome dado pelo Francisco. Nossa visita constante. |
Estamos
muito bem. Já começamos a articular o reinicio de trabalhos do Ocitocina Atelie. Nossos filhos estão mais calmos. Brincam o dia todo no quintal, e
finalmente eles têm as roupas sujas.
Tem
sido uma aventura cada vez que resolvemos sair pra cidade. Quando não é um
pisar no cocô de vaca ou cavalo, é um desses animais que escapam e a gente tem
de ir resgatar antes de seguir. Ou então um deles resolve empacar na porteira ou
no meio do caminho.
Aqui
na roça o dia tem 24 horas e o silêncio é rei!